
1. Acaba-se o desconforto. Não é fácil ser amigo de alguém por quem se sente uma atração. Ao fim de uns tempos, ou deixamos de ver aquela pessoa, porque precisamos de nos salvaguardar, ou acabamos incomodados com quase tudo o que possa dizer que esteja relacionado com emoções – porque começou a sair com alguém e está entusiasmada, porque está triste por não receber um telefonema especial, porque se sente sozinha ou por outra coisa qualquer. Temos vontade de esticar a mão e fazer a festa, vontade de agarrar, vontade de dizer que se gosta, vontade de dizer «Hello, estou aqui, olha para mim, mas com outros olhos!» Pelo meio, desenvolvemos aquela estranha relação platónica de admiração e não queremos estragar o que já parece perfeito. Com um senão: não é perfeito. Perfeito é ter aquela pessoa

2. Já passaram a fase da descoberta. Pode ser um momento muito bom numa relação. Aqueles meses com um misto de encantamento e mistério. Mas é também um tempo ilusório, em que tudo parece perfeito – e depois não é – ou em que se força um personagem que pode não ser real. Se já são amigos há uns tempos, podem passar diretamente para a fase em que até conseguem gerir os silêncios. Os silêncios bons. Aqueles em que não há necessidade de dizer nada para preencher o vazio. Atingir esse nível sem perder tempo é como receber os dez euros sem ter de passar pela casa de partida

3. Conhecem os segredos – e hábitos – um do outro. Não todos – há coisas que não se partilham com ninguém – mas aqueles que às vezes precisamos de revelar, mas só a alguém especial. Ok, é verdade: se algum dia sonhassem que aquela pessoa iria dormir convosco e iriam entregar declarações de IRS juntos ou poderia ser um bom pai para os vossos filhos, se calhar não teriam falado tanto, e agora… tarde demais. Mas assim não há esqueletos escondidos no armário. A parte má disto é que também já sabem coisas de que não gostam muito, mas se chegaram ao ponto em que equacionam mesmo a relação com aquela pessoa, é porque isso já não vos incomoda assim tanto. E isto implica os maus hábitos também. Aquelas coisas que irritam no outro, mas que, bem vistas as coisas, até somos capazes de suportar. Do prato com migalhas em cima do sofá à mania irritante de nunca tapar a garrafa de azeite

4. Ele já vos viu sem maquilhagem. E sem saltos altos. E sem roupa sempre impecável. E, acreditem, isso não é assim tão importante para um homem quanto se possa pensar – ou anos e anos de clichés de comportamento ajudaram a sedimentar –, essa coisa de ver a mulher sempre arranjada de determinada maneira. Não tem nada a ver com encantamento ou perfeição. Isso é um mito. Tem a ver com «normalidade». Quanto mais depressa se chegar ao dia em que se vê a unha lascada, as pernas que não foram depiladas (bolas, estamos no inverno), a blusa que tem um buraco, mas num sítio que ninguém vê ou o cabelo que está apanhado porque não há tempo para o lavar e não está em condições de usar solto, melhor

5. Respeitam-se. Respeitar a outra pessoa, com as suas idiossincrasias todas, é um pilar fundamental para uma relação equilibrada. Ora, podemos até não gostar dos hábitos dos amigos ou das opções de vida que tomaram, mas respeitamo-los como pessoas. E isso nem sempre acontece numa relação a dois. Se tiverem uma bagagem anterior ao tempo de intimidade, é mais difícil ultrapassar aquela barreira invisível onde o respeito pelo outro cai por terra

6. Ele já conhece as histórias dos "outros". O passado sentimental de alguém é uma coisa tramada de gerir. Ficamos sempre com a ideia que há coisas que é melhor a outra pessoa não saber. Porque pode dar origem a perguntas, mal-estar, dúvidas, incertezas, comparações. E um ou outro comentário menos simpático, se for preciso, no auge da discussão. Quem nunca atirou «o outro» ou «a outra» à cara, seja a sério ou em tom de brincadeira? Em circunstâncias normais, este é o tipo de informação que vale a pena dosear – ele não precisa de saber tudo, pois não. Mas, já que é tarde demais para isso, pelo menos não têm segredos. Desses segredos

7. Poupa-se a conversa da treta. Durante a fase da conquista (também pode ser apenas engate, mas aplica-se a ambos os casos), vale quase tudo para fazer a outra pessoa rir. E ficar entusiasmada e curiosa. Ora, se levarmos isso ao extremo, podemos cair no reino da bazófia. Uma das grandes vantagens em ter uma relação com alguém que se conhece há muitos anos, é que já nos topa à légua. E há coisas que já não se dizem a uma mulher que conhecemos há uma série de anos. Os homens não gostam de ouvir "Olha, sou eu que estou aqui? Poupa-me esse discurso. Eu já te conheço e isso comigo não cola"
Um amigo é um amigo e não se devem misturar as coisas – caso contrário, se der para o torto, acaba-se a relação e acaba-se a amizade. Certo? Errado! Um amigo – não um amigo qualquer, mas aquele amigo – pode ser o companheiro perfeito. E não apenas para o cinema.
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