
Um estudo internacional revela que pode ter sido identificado o mecanismo neurológico que subjaz e pode ser a causa da anorexia nervosa. Conclusões que chegam de uma investigação feita em ratos e que lhes identificou uma deficiência do neurotransmissor acetilcolina, no corpo estriado dorsal e que remete para a construção de hábitos.
Com a limitação desse neurotransmissor, os ratos desenvolveram uma tendência excessiva para criar ainda mais hábitos, resultando numa redução drástica no consumo de alimentos com um modelo comportamental de anorexia usado em roedores, denominado “anorexia baseada na atividade”.
A acetilcolina é uma substância química que transmite os impulsos nervosos entre as células do sistema nervoso e está também associdada à transmissão de impulsos entre as junções das células nervosas e musculares, que provocam a contração muscular.
De volta ao estudo internacional, publicado na revista Nature Communications (e que pode ser consultado no original aqui), os ratos foram tratados com um estimulador de acetilcolina conhecido, como donepezil – que é usado para atuar sobre sintomas da doença de Alzheimer -, e que ajuda a bloquear a degradação da acetilcolina, aumentado os níveis do neurotransmissor presente no corpo. A equipa de investigadores notou que, após este tratamento, os ratos já não desenvolveram comportamentos semelhantes à anorexia no modelo baseado na atividade.
A análise foi levada a cabo no laboratório de Neurociências Paris Seine (Universidade Sorbonne/Inserm/CNRS) liderado pela professora de neurociências Stéphanie Daumas (Universidade Sorbonne/Inserm/CNRS) e pelo pesquisador Nicolas Pietrancosta (Universidade Sorbonne/ENS/Universidade PSL/CNRS), em colaboração com o pesquisador Salah El Mestikawy (Universidade McGill/Instituto Universitário de Saúde Mental Douglas/CNRS emérito/Universidade Sorbonne).
Neste momento, procura-se uma validação desta linha de investigação em humanos que sofrem de anorexia nervosa, uma doença ainda pouco compreendida.
Nesse sentido, está a decorrer um estudo independente para avaliar a eficácia do donepezil na anorexia nervosa. A psiquiatra canadiana Leora Pinhas tratou dez pacientes que sofriam de anorexia nervosa grave com donepezil.
Entre todos eles, três apresentaram remissão completa, enquanto os outros sete observaram melhoria acentuada na sua condição. Ensaios clínicos controlados por placebo serão realizados em 2024 no hospital Sainte-Anne em Paris, na Universidade de Denver e na Universidade de Columbia em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.