
Cerca de uma semana depois de ter agitado as águas por escolher levar à passadeira vermelha da gala dos Globos de Ouro um vestido feito de transparências e de peito desnudado, a fadista Ana Moura revelou as razões pelas quais o fez e os efeitos ameaçadores que tal provocou.
Em entrevista ao podcast de Bruno Nogueira, Isso Não se Diz, de 6 de outubro, a cantora revelou que não pensou que a sua decisão tivesse tanto impacto, que recebeu “ameaças” e teve de pedir para não ficar sozinha para não ouvir “bocas”. Contudo, a fadista, que tem vindo a receber elogios pela sua escolha ousada, acredita que “se mais pessoas o fizerem e normalizarem, isto acaba por deixar de ser uma conversa”. Afinal, considera, “o peito da mulher não é um órgão sexual, é um órgão sexualizado” e vinca: “alimentei um ser humano através do meu peito, foi capaz de fazer um ser humano viver exclusivamente disso.”
As razões da transparência: do trabalho à amamentação
e à autoconfiança
A opção de mostrar o peito foi pensada e decidida até 15 minutos antes de pisar a passadeira vermelha. E houve várias razões que motivaram Ana Moura a levar a sua decisão por diante. “Eu estava a celebrar [nos Globos de Ouro] o facto de estar lançar um single novo e que foi escrito e inspirado num ensaio de escritora norte-americana Audre Lord, Os Usos do Erótico: o Erótico como Poder, e no qual ela redefine o verdadeiro significado do erótico e que a sociedade atual, patriarcal, tende a confundir com pornográfico”. E prossegue: “Ela [a autora e poetisa] acha que são coisas diametralmente opostas. O erótico é a transcendência das emoções, qualquer experiência que envolve emoção. A verdade é que a mulher foi habituada a reprimir várias formas de se expressar, e isso impede-nos de viver aqueles momentos com toda a plenitude, até com o nosso próprio corpo. E esta minha nova música fala sobre isso, tem um videoclipe com coreografia especifica em hells, dança saltos altos, e que reclama muito o lado do erótico e do sensual”.
À motivação profissional, Ana Moura elencou razões pessoais para eleger a escolha de uma peça de arquivo, de 2002, da designer minimalista belga Ann Demeulemeester e que tem de ser usada assim, “com aquela delicadeza e sem nada para baixo, ou melhor, com o meu corpo”.
“É o peito de uma mãe que acabou de amamentar, sem ajuste, e que vejo com muita beleza porque foi um momento que me fez ganhar também muita confiança, olhar para o meu corpo de uma outra maneira e de o celebrar de outra forma”, acrescentou, falando num momento “realmente libertador”.
“Senti que este momento [os Globos de Ouro] pedia isto, por isso, vamos embora. Senti-me segura, com serenidade, no momento, livre. E quando saí da passadeira vermelha e entrei no elevador pensei: ‘grande Ana’”, risos.
A fadista crê que, no futuro, casos semelhantes não mereçam mais discussão, e há sinais que indicam que esse caminho está a chegar. “As novas gerações já não usam quase soutiens”, exemplifica, considerando que, “na altura da minha filha, esta ideia de choque vai ser vista como ridícula”.