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Cancro e falta de libido nas mulheres? “A taxa de incidência é praticamente total”

Mónica Gomes Ferreira, especialista em obstetrícia e ginecologia, diretora-executiva e cofundadora da MS Medical Institutes, é diretora do Instituto Mulher e Saúde [Fotografia: Divulgação]

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Este silêncio em torno do cancro e do impacto na sexualidade das mulheres pode custar “centenas a milhares de euros por ano”. As contas são antecipadas pela ginecologista e obstetra Mónica Gomes Ferreira à Delas.pt no momento em que se assinala o Dia Nacional de Prevenção do Cancro da Mama, esta quarta-feira, 30 de outubro.

A especialista lembra que há soluções, mas que importa atuar em tempo numa doença que atinge cada vez mulheres mais novas e em tumores cujos efeitos secundários e sequelas dos tratamentos arriscam piorar com a idade. “Caso a mulher ainda não esteja na menopausa, esta [conjugação de fatores] pode surgir prematuramente, ou caso a mulher já esteja, os sintomas podem ser intensificados”, alerta também a diretora-geral do Instituto Mulher e Saúde.

Por isso, urge combater “perda de libido, secura vaginal, dor durante as relações sexuais e alterações na autoimagem devido às cicatrizes cirúrgicas e à perda da mama”. Um trabalho, refere a médica em entrevista por escrito à Delas.pt, que não pode ser feito apenas pela paciente, mas por quem a acompanha: desde os especialistas até aos parceiros.

Qual a taxa média de incidência de disfunções sexuais em doentes oncológicas?

São inúmeras as disfunções que ocorrem fruto dos tratamentos oncológicos, por exemplo, perda de libido, secura vaginal (devido aos tratamentos hormonais), dor durante as relações sexuais e alterações na autoimagem devido às cicatrizes cirúrgicas e à perda da mama, mas isso não significa que todas as mulheres sejam afetadas da mesma maneira, sofram as mesmas disfunções e/ou com o mesmo nível de intensidade. Com esta ressalva em mente, a taxa de incidência é praticamente total.

Piora com a idade a que se tem a doença oncológica? Porquê?

Com o adiantado da idade, por exemplo a partir dos 40/45 anos, as disfunções sexuais podem piorar uma vez que os sintomas são muito semelhantes aos da menopausa e existe uma conjugação de fatores que são intensificados. Caso a mulher ainda não esteja na menopausa, esta pode surgir prematuramente, ou caso a mulher já esteja, os sintomas podem ser intensificados.

Numa altura em que crescem os números de cancro em mulheres cada vez em idade mais jovem, quais os efeitos secundários de natureza sexual mais prevalentes? Porquê? O que pode ser feito?

Os efeitos secundários são os mesmos, maioritariamente perda de libido, secura vaginal, dor durante as relações sexuais, sintomas antes associados à menopausa e considerados “normais” tendo em conta a idade das mulheres. Atualmente, com os casos oncológicos a acontecer em mulheres cada vez mais novas, existe uma antecipação destes sintomas em mulheres que ainda estão em idade reprodutiva, o que faz com que a nível psicológico e emocional tenha efeitos ainda mais devastadores. Contudo, a boa notícia é que, seja em que idade for, estes problemas secundários têm tratamento e não precisam de ser perpetuados, predominantemente com tecnologia minimamente invasiva e técnicas de medicina regenerativa. Independentemente do caso, o mais importante é consultar um médico especialista, não ter receio ou vergonha de expor o caso, conhecer as diferentes opções disponíveis e ver quais é que se adequam melhor ao seu caso.

Quais os custos médios associados a tratar este tipo de sequelas? Como podem as mulheres sem recursos aceder a este tipo de cuidados pós-tratamentos oncológicos?

Os custos médios para tratar sequelas de disfunção sexual podem variar bastante, dependendo dos tratamentos necessários, como terapias hormonais, psicoterapia ou medicamentos, e podem ir de algumas centenas a milhares de euros por ano. Para mulheres sem recursos, o acesso a cuidados pós-tratamento oncológico pode ser possível através do Serviço Nacional de Saúde (SNS), programas de apoio social, Organizações Não Governamentais especializadas ou associações de apoio a doentes oncológicos, que oferecem serviços gratuitos ou a preços reduzidos.

Sem desvalorizar os efeitos físicos e terapêuticos, viver um cancro coloca também problemas de autoestima. Em que medida estas sequelas não são também fruto disso e como podem ser trabalhadas?

Os problemas de autoestima são tão importantes quanto os problemas físicos e não devem ser desvalorizados, nunca. Até porque funcionam como uma bola de neve. Normalmente surgem por consequência dos problemas físicos, mas quando instalados também contribuem para que os problemas físicos levem mais tempo a curar. O facto de serem vividos de forma pessoal por cada mulher e com diferentes níveis de intensidade, torna-os ainda mais desafiantes, e, por vezes, ainda mais difíceis de tratar do que os problemas físicos. É por isso que acreditamos que o tratamento deve ser encarado de forma transversal, com diferentes profissionais, cada um com a sua especialidade, a trabalharem em conjunto em prol de cada paciente. Só assim é possível oferecer um tratamento completo e com resultados mais eficazes, mais rapidamente.

Se for um cancro de mama, esta falta de autoestima poderá ser mais voraz. Como lidar? O que fazer? Como combater o delay entre mastectomias e cirurgias de reconstituição?

Num processo de tratamento de cancro da mama que implique mastectomias, as alterações ao corpo da mulher são inevitáveis, pelo que o impacto emocional dessa situação deve ser antecipado e trabalhado logo desde o início. A mulher deve conhecer ao pormenor todo o processo, deve estar ciente do que lhe vai acontecer e deve saber, por antecipação, das consequências e soluções que tem após a mastectomia. Nas minhas consultas, quando acompanho um caso desde o início, faço questão que o diálogo seja permanente e que a minha paciente saiba o que a espera em cada fase e quais as suas opções. Assim, além de uma relação de confiança e proximidade, a minha paciente não é apanhada desprevenida numa fase em que tudo é novo e difícil de aceitar. Quando vêm até mim mulheres que já estão a meio do processo e que, por diversos motivos, não tiveram uma experiência positiva, o meu primeiro passo também é ouvir, perceber quais são as suas principais queixas e, em conjunto, arranjar soluções para devolver a esperança a mulheres que estão muito fragilizadas psicologicamente.

Há forma de prevenir estas sequelas ou tentar reduzi-las ao máximo numa fase anterior e durante os tratamentos? Se sim, como?

Os tratamentos têm diferentes fases e estas devem ser respeitadas. As consequências dos tratamentos fazem parte do processo, são expectáveis, e cada uma tem uma altura certa para começar a ser trabalhada. Por isso, é tão importante ter uma equipa de confiança, próxima, que permita que a paciente siga o plano recomendado e conheça ao pormenor cada passo que vai ser dado. O apoio psicológico profissional deve fazer parte do processo desde o início e não ser incluído apenas a meio ou após. Também nestes casos a prevenção e a antecipação são fundamentais.

Não será seguramente apenas um problema das mulheres doentes. Como sensibilizar companheiros para esta realidade? O que pode e deve ser feito no seu entender?

Nas minhas consultas, os parceiros são sempre convidados a participar, a ouvirem e a questionarem. Nem os parceiros nem as doentes são médicos pelo que não devemos partir do princípio que já sabem o que vai acontecer ou que estão preparados para o caminho. Também para eles, o processo é difícil e é novidade. Só companheiros conhecedores são capazes de apoiar ou estar nos presente nos momentos certos. Se o companheiro não for envolvido ao longo do processo, não vai saber ou conseguir ajudar porque desconhece o que está a acontecer. E, por vezes, a ajuda passa simplesmente por estar presente, por agarrar a mão, por dar um abraço, por saber ouvir sem julgar e respeitar o processo.

Recursos como sex toys ou outros podem ajudar? Sim? Não? Em que medida?

Sim, recursos como os sex toys podem ajudar a melhorar as sequelas de disfunção sexual associada ao tratamento do cancro da mama. Estes dispositivos podem ajudar na estimulação física e no aumento do conforto durante a relação sexual, especialmente em casos de secura vaginal ou diminuição da libido, comuns após tratamentos oncológicos. Além disso, podem ser uma forma de redescobrir o prazer e reconectar-se com o corpo após os efeitos colaterais dos tratamentos, promovendo uma recuperação emocional e sexual mais equilibrada. No entanto, é sempre aconselhável discutir o seu uso com um profissional de saúde especializado.

Sexo e oncologia: Não é um tema que seja frequente? Porquê este silêncio?

Portugal é um país muito conservador onde os temas relacionados com sexo, de forma geral, são tabu. É um problema cultural que verificamos quer na comunidade médica, quer nos pacientes. Ou seja, nem os doentes sentem à vontade para questionar, nem os médicos dão oportunidade aos doentes para falar sobre o tema, seja por preconceito, vergonha ou desconhecimento também. Se os médicos não estiverem preparados para responder às dúvidas que surgem, com a naturalidade que a situação o exige, então preferem não o fazer. Do lado dos pacientes, verificamos muitas vezes que além da vergonha, por desconhecimento sentem que são efeitos secundários inevitáveis e que não há nada a fazer. No caso do cancro da mama, infelizmente, chegam à minha consulta muitas mulheres que após a reconstrução mamária são dadas como “curadas” sem nunca terem tido oportunidade de falar sobre as disfunções sexuais associadas e que comprometem a sua vida pessoal e familiar. As disfunções sexuais são uma consequência dos tratamentos ao cancro da mama e é urgente falar sobre isto, para se mudar esta situação e fazer com que estas disfunções não sejam mais um problema, quando existe tratamento e são reversíveis.