
O falecimento de um ídolo pode ser sentido, para muitos, como “sinónimo de perda profunda”, avança Teresa Feijão. Apesar de se tratar de referências que não se pautam pela proximidade física, elas surgem “associadas”, muitas vezes, “a memórias positivas”.
Nesse sentido, como explica a psicóloga à Delas.pt, é como se “celebridades passassem a fazer parte do dia a dia, aumentando a sensação de proximidade, empatia e influenciando o estado de espírito positivamente”. Mas não só: podem também atuar como “forma negativa quando mostram os seus problemas, ficam doentes ou morrem”, alerta a especialista.

No momento em que a morte inesperada do antigo elemento da banda One Direction, Liam Payne, de 31 anos e falecido esta quarta-feira, 16 de outubro, na sequência de uma queda de um terceiro piso de um hotel, na Argentina, comove milhões em todo o mundo e despedaça fãs, é tempo de perceber como dar a mão a quem sofre com o desaparecimento prematuro de um ídolo. Arriscando representar, contudo, muito mais do que isso: um adeus a um passado comum. “A morte de uma pessoa famosa que admiramos pode representar uma perda daquele(s) momento(s) particular(es) do nosso passado representado por uma memória especial associada a algum ou vários momentos da nossa vida”, lembra Teresa Feijão.
Uma dor que pode ser potenciada pelos detalhes em que a morte acontece. “As circunstâncias trágicas e misteriosas em torno da morte de Liam Payne podem, sim, intensificar o luto de um adolescente”, alerta a especialista. Para Teresa Feijão, “o choque, a falta de respostas claras ou especulações sobre o incidente podem aumentar os sentimentos de confusão, raiva ou injustiça, prolongando o processo de aceitação da perda. A incerteza pode também gerar uma obsessão por respostas, dificultando o trabalho emocional. Nesse caso, é importante ajudar o adolescente a focar-se no impacto positivo deixado pelo seu ídolo e na gestão saudável do luto.”
O que pode ser feito?
“Em primeiro lugar, é importante reconhecer a dor do jovem como legítima, já que muitas vezes esses vínculos com celebridades são profundos”, recomenda a psicóloga, prosseguindo: “Devem ser incentivadas conversas abertas sobre o que o seu ídolo significava para ele, além de validar a sua tristeza e estar disponível para o apoio que precise. É o mínimo fundamental para lidar com o luto”.

Podem ser esperadas reações como a “tristeza, ansiedade, angústia, saudade, preocupação, insónia, choro fácil”, enumera a terapeuta. “O que varia é a sua intensidade e duração no tempo, as quais são maiores quando a perda se refere a uma pessoa próxima de nós (familiar ou amigo). O mesmo pode acontecer com alguém famoso, com o qual, mesmo à distância, se criou um laço emocional, um vínculo forte, por admiração, refreia e empatia”.
“Vivenciar um luto é uma das situações mais dolorosas para o ser humano. Apesar de ser uma resposta natural do ser humano a uma perda significativa, é importante, perante um agravamento da sintomatologia associada, que o luto seja elaborado, de forma a capacitar o enlutado a aceitar a realidade da perda, a pensar na pessoa que perdeu sem angústia e dor (ainda que alguma tristeza e saudade possam estar presentes) e a voltar a sentir equilíbrio emocional, bem-estar e esperança no futuro”, especifica Teresa Feijão.
Caso os sintomas se acentuem ou prolonguem no tempo, há que pedir ajuda especializada. E, neste caso, os sinais de alerta multiplicam-se. “A elaboração de um luto dito ‘normal’ pode apresentar uma ampla gama de sentimentos, cognições e comportamentos, nomeadamente: choque, raiva, tristeza, impotência, fadiga, saudade, culpa, ansiedade, alívio, confusão, descrença, preocupação, alucinações, desesperança, choro, perturbações de sono, isolamento social, entre outros. Contudo, quando estas reações se prolongam no tempo ou quando são muito intensas e afetam o bem-estar, motivação, quotidiano e qualidade de vida física e mental do indivíduo enlutado, há que considerar a ajuda por um profissional de saúde”, rede a especialista.
Quando a morte de uma celebridade é o primeiro luto de uma vida
Perante esta circunstância, Teresa Feijão pede para que seja dado “espaço ao adolescente para colocar as suas questões relativamente à morte, as quais devem ser ouvidas e respondidas com honestidade”. “Escutar com empatia e validar os seus sentimentos, sem minimizar a dor, é crucial. Os pais/cuidadores/amigos podem responder relativamente ao que sabem, podem compartilhar sentimentos relacionados com a morte e a perda, receios e desconhecimento em relação a questões depois da morte; explicar o processo do luto de forma simples, reforçando que a tristeza é natural e pode durar algum tempo. Importante incentivar atividades que tragam conforto e promover o apoio emocional de familiares e amigos”, recomenda. Afinal, vinca Teresa Feijão, “é importante ajudar os adolescentes a começarem por criar um ambiente seguro para que possam expressar as suas emoções livremente. A comunicação e abertura são muito importantes”.