Duas mulheres, uma campa e a salvação. Peça ‘As Ressuscitadas’ aborda a violência e a misoginia

Casa de Teatro de Sintra - 1
Susana C. Gaspar e Paula Pedregal na peça 'As Ressuscitadas' [Fotografia: Divulgação]

Guilhermina e Hermínia não se conheciam, mas acabam por se salvar às duas enquanto lutam contra drama comum: o da violência doméstica. A história de As Ressuscitadas decorre num cemitério e numa sepultura que ajuda à fuga da morte de uma mulher às mãos de um companheiro violento e quer convocar consciências para o abuso e a opressão que as mulheres ainda vivem na sociedade.

“Esta peça centra-se no encontro entre duas mulheres, vítimas de vários tipos de violência, abuso e opressão por parte de homens. Apesar das suas diferentes origens e contextos, decidem confiar e salvar a vida uma da outra”, detalha a atriz Paula Pedregal em entrevista por escrito à Delas.pt.

A história original de Miguel Falcão, que está em cena até 8 de dezembro, na Companhia de Teatro de Sintra, quer abordar a violência e a misoginia numa realidade em que a desigualdade de género e a agressão contra as mulheres são uma constante. A encenação, que conta com a representação de Susana C. Gaspar e Paula Pedregal , traz também à luz os valores enraizados da sociedade patriarcal que mantêm a opressão e que se refletem ainda em parte no sexo feminino: o “machismo das mulheres”, refere Paula Pedregal.

Susana C. Gaspar espera que esta peça “ajude a desbloquear conversas e debates necessários para que a mudança aconteça”, Paula Pedregal crê na importância de fazer passar a mensagem de que “ nós, mulheres, somos apoio, força, impulso, nas vidas umas das outras”.

Porque escolheram levar a cena esta história As Ressuscitadas?
Susana C. Gaspar (SCG): As Ressuscitadas é um texto inédito escrito por Miguel Falcão, que venceu o Prémio Nacional de Artes do Espetáculo Maria João Fontaínhas em 2022. Para além do prémio com valor monetário, o Chão de Oliva fica responsável pela encenação desse texto nos anos seguintes. Ficámos muito felizes por ter sido este o texto vencedor, por se enquadrar muito bem nos ciclos de criação que definimos para o Chão de Oliva. Em 2024, temos estado dedicados ao ciclo Geografia da Resistência, no âmbito do cinquentenário do 25 de Abril e, no próximo ano, 2025, estamos dedicados à Geografia do Género, refletindo sobre temáticas como igualdade de género e também o que significa hoje esse conceito. Este texto é perfeito para encerrar o ciclo da resistência, através da resistência de duas mulheres em palco e fazer a transição para o nosso próximo ciclo, numa altura em que a desigualdade de género e a violência contra as mulheres, infelizmente, ainda são uma constante.

“Este texto é perfeito para encerrar o ciclo da resistência e fazer a transição para o nosso próximo ciclo, numa altura em que a desigualdade de género e a violência contra as mulheres, infelizmente, ainda são uma constante”

Paula Pedregal (PP): Não tendo sido uma escolha nossa, acabou por ser uma feliz coincidência. A temática não podia ser mais pertinente. Esta peça centra-se no encontro entre duas mulheres, vítimas de vários tipos de violência, abuso e opressão por parte de homens. Apesar das suas diferentes origens e contextos,
decidem confiar e salvar a vida uma da outra. A peça traduz os seus medos,
perdas e desilusões, mas também opera sobre a desconstrução de estereótipos e sobre a forte cumplicidade entre mulheres.

Como se prepararam para esta história e personagens? Basearam-se em
histórias pessoais, em testemunhos de associações? Outros? Porquê?
SCG: O texto do Miguel Falcão é um texto muito denso e rico,
sobretudo pela forma como aborda um tema dramático e pela maneira como
consegue incorporar alguma leveza e poesia. Apesar de não se basear em casos
verídicos, acaba por representar relatos de milhares de mulheres que passaram e passam por situações semelhantes. Já ouvimos falar de tantos casos de violência. Eu própria já sofri na pele, como tantas outras mulheres, esse assédio e violência. Não só emprestamos a nossa própria vivência como mulheres como procuramos inspiração em outras mulheres que conhecemos. Tentámos tornar estas personagens em mulheres reais.

 

Susana C. Gaspar [Fotografia: DR]

PP: Infelizmente, não precisamos de pesquisar muito. Basta olhar
para o lado, ou recorrer à memória. Convivemos com estas realidades diariamente e todas temos histórias mais ou menos próximas. No meu caso, conheço mais histórias do que desejava…, as minhas ancestrais, as minhas avós. Histórias de mulheres que foram ou são vítimas de violência doméstica, de violência no namoro, etc; ou tão só essa espécie de pressão/opressão veiculada por uma sociedade que é patriarcal e que dita comportamentos, modelos de feminilidade; ou ainda o bullying diário que se traduz por exemplo na humilhação verbal nos ambientes de trabalho, e até no seio das próprias famílias. Por outro lado, o Miguel Falcão é exímio na operação de desconstrução desses estereótipos de género que vão da idealização romântica do amor e das relações, ao sentimentalismo atribuído às mulheres, passando pelas imposições associadas à construção da feminilidade através da maternidade, do casamento, etc; até aos comportamentos de competição e rivalidade entre mulheres. Reconhecemos estas histórias e debatemos muito durante a dramaturgia. A linguagem estética do espetáculo ajuda a desconstruir muitos estereótipos, mas não deixa de ser um retrato vivo destas histórias. E esta desconstrução também vinha ao encontro de linguagens e estéticas teatrais com que nos identificamos, que vão do teatro de absurdo, passando pela tragicomédia, com contornos do teatro expressionista.

Diz-se comummente que nem sempre as mulheres são as melhores amigas umas das outras. De que maneira é que esta peça e a encenação podem provar exatamente o contrário?
SCG: A amizade que testemunhamos entre estas duas mulheres, em As Ressuscitadas demonstra verdadeiramente o poder da cumplicidade entre mulheres, que salvam a vida uma da outra. Estas “Winnies” são personagens que embora muito diferentes, são capazes de olhar uma para a outra, sem julgamento, entenderem-se muitas vezes sem palavras e serem capazes de apoio mútuo. No início do texto parece que não se estão a ouvir. Mas logo se percebe a aproximação entre ambas, como se vão descobrindo e libertando do que as prende.
PP: É na grande escuridão que se vão descobrindo – juntas – até ao momento em que se reerguem e descobrem o seu valor. Esta é uma peça que tem um grande foco na confiança e na partilha de medos, perdas e desilusões, apelando à construção de um futuro mais solidário entre as mulheres, para que se possam descobrir e sair da sombra da violência.

Paula Pedregal [Fotografia: DR]

SCG: Relembra-nos a força que as mulheres têm quando se unem, pela sua liberdade, pela plenitude dos seus direitos.

Quais os desafios sentidos quando é preciso trazer valores culturais como a misoginia, as construções sociais, o machismo?
SCG: A mensagem transmite-se através da emoção destas personagens, das suas histórias de vida e das suas descobertas e sobretudo pela forma como se preparou o final do espetáculo. Há valores culturais que estão profundamente enraizados na nossa cultura. Cada vez mais se sensibiliza para uma necessária reavaliação dos nossos valores e das nossas tradições, mas temos um longo percurso a fazer, com todas as gerações. Toda a equipa artística sentiu uma forte responsabilidade perante a temática deste texto.

“A minha personagem, por exemplo, incorpora valores internalizados e
veiculados pela cultura patriarcal como o próprio machismo das mulheres”

PP: Passou muito por defender o indefensável, para provocar a
reflexão. A minha personagem, por exemplo, incorpora valores internalizados e
veiculados pela cultura patriarcal como o próprio machismo das mulheres.

Quais os desafios mais complexos para levar esta peça a cena e porquê?
PP: Um dos desafios, penso que sentido por todos os artistas hoje em dia, prende-se com o tempo: nunca ser o suficiente para levar a
investigação/pesquisa tão longe quanto gostaríamos. Por outro lado, o trabalho
laborioso da encenação que procura refletir sobre um assunto premente e
delicado da atualidade traduzido em formas/estéticas do teatro contemporâneo.
SCG: Quando se trata de temas tão sensíveis e urgentes como este há sempre um longo processo de questionamento. Procurar a coerência e
respeito pelo tema, mas em simultâneo não fechar possibilidades no processo
criativo, não termos medo de arriscar. Questionamos, por exemplo, se haveria
necessidade de termos violência explícita. Desde cedo percebemos que não
queríamos ir por aí. Já há muita violência implícita neste texto – e no mundo – e,
por vezes, consegue-se transmitir a mensagem com ainda mais força quando
existe algo que é devolvido de outra forma.

O que esperam que a peça provoque em concreto no público feminino e no masculino?
PP: No meu caso, que ainda sou utópica, gosto de acreditar que a
arte serve para transformar vidas. Gostava que esta peça chegasse a quem precisa desta mensagem. Sobretudo a mensagem implícita (para lá da reflexão da violência exercida sobre as mulheres): nós, mulheres, somos apoio, força, impulso, nas vidas umas das outras.
SCG: Cada pessoa será impactada de maneira diferente, sobretudo dependendo das suas próprias vivências e referências. Espero que esta peça ajude a desbloquear conversas e debates necessários para que a mudança aconteça.

A peça vai estar em cena alguns dias? Depois de Sintra, há planos previstos para chegar a outras salas de teatro? Se sim, quais?
PP: A peça vai estar em cena até dia 8 de dezembro na Casa de Teatro de Sintra, de quinta a sábado às 21.30h e domingo às 16.00h. Por agora, será levada a palco apenas em Sintra, mas tem como objetivo a itinerância.