Aborto. migração e clima. O que defende Kamala Harris, que já foi presidente dos EUA… por uma hora

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Kamala Harris [Fotografia: Brendan SMIALOWSKI / AFP]

Kamala Harris protagonizou a 19 de novembro de 2021, um momento histórico ao tornar-se, ainda que por pouco mais de uma hora, na primeira mulher presidente dos Estados Unidos, após Joe Biden lhe ter transferido os poderes para se submeter a uma colonoscopia com anestesia.

Nessa data, recorde-se, e enquanto presidente interina, Kamala Harris trabalhou desde o seu gabinete na ala oeste da Casa Branca, revelou à data o porta-voz do governo dos Estados Unidos, Jen Psaki. Assim que Biden acordou do procedimento médico, Harris viajou para Ohio. Jen Psaki salientou que a vice-presidente “faz história todos os dias” e que Biden sabia bem da dimensão da escolha quando a convidou para a administração.

“Hoje foi certamente mais um capítulo dessa história. Acho que é notável para as mulheres e meninas de todo o país”, acrescentou Psaki.

Agora, a democrata e procuradora da Califórnia, de 59 anos, recebe o apoio do ainda presidente e de múltiplas figuras do partido para tentar a sua nomeação à corrida das presidenciais, que têm lugar a 5 de novembro. O tempo urge e Kamala luta por um lugar em nome próprio que já ocupou, ainda que temporariamente.

Este domingo, 21 de julho, o presidente norte-americano, Joe Biden, anunciou o abandono da corrida às eleições presidenciais. “Acredito que é do interesse do meu partido e do país que me afaste e me concentre apenas em servir como Presidente durante o resto do meu mandato”, disse o político democrata em comunicado de imprensa.

O líder da Casa Branca de 81 anos, cuja condição de saúde tem vindo a ser questionada, indicou que vai explicar posteriormente a sua decisão num discurso à nação.

Pouco depois de ter anunciado a sua desistência, o Presidente norte-americano declarou “apoio total e recomendação” à sua vice-Presidente, Kamala Harris, como candidata presidencial do Partido Democrata. “É uma honra receber a recomendação do Presidente e a minha intenção é merecer e ganhar esta nomeação”, disse Harris, numa declaração em que qualifica a decisão de Joe Biden abandonar a corrida de um “ato abnegado e patriótico”.

Aborto, migração e clima, o que defende Kamala Harris

É considerada uma mulher defensora das causas feministas, mas a escolha de exercer uma vice-presidência discreta não tem ajudado a que sejam conhecidas ao detalhe todas as ideias de Harris, que tem falado repetidamente sobre “as causas profundas” da imigração, como a pobreza e a insegurança no caso da América Latina.

“Não podemos reduzir este problema a uma questão política. Estamos a falar de crianças, de famílias, de sofrimento”, disse em 2021, numa visita ao México e à Guatemala, de acordo com uma análise das posições de Kamala Harris da agência Efe.

No entanto, nessa mesma viagem, também alertou quem planeava emigrar: “Ao povo desta região que pensa fazer aquela viagem perigosa até à fronteira mexicano-americana [digo]: ‘Não venham’.

Ou seja, Harris está presa no dilema do Partido Democrata: garantir o controlo da fronteira mas mostrar um espírito mais humano que difere da retórica de Trump, que se resume no seu grito de guerra: ‘Levantem o muro’.

Sobre o aborto, em março, Harris visitou uma clínica da Planned Parenthood no Minnesota onde se realizavam abortos, transformando a sua simples presença numa declaração de intenções sobre as suas posições, que são mais pró-aborto do que as de Joe Biden que, sem se opor a este direito, o fez.

Esta postura claramente inclinada para defender os direitos das mulheres acima dos princípios religiosos pode fazer uma grande diferença com Trump, forçado a negociar entre a ala dura e ultraconservadora do seu partido e a ala mais liberal.

A candidata em ascensão tem sido uma defensora determinada do combate às alterações climáticas e, para o provar, representou o seu país na última cimeira do clima (COP-28) no Dubai, onde se vangloriou de o seu governo ter atribuído biliões para a luta contra os gases com efeito de estufa.

Embora a sua posição contraste com o negacionismo de Trump, o ‘site’ Grist.org especializado no assunto lembra que do dizer ao agir vai longe e que quando Harris conseguiu demonstrar o seu compromisso apenas promoveu algumas queixas e nenhuma delas foi contra grandes corporações.

A página Taxnotes.com sublinha que Harris é “tão progressista como pragmática” e que promoveu reformas fiscais para aliviar os encargos sobre as classes mais baixas, ao mesmo tempo que se recusou a aplicar cortes aos mais ricos. Isto diferencia-a claramente das promessas de Trump”.

Não se espera que Harris reverta o apoio inabalável dos EUA a Israel, mesmo depois das suas mais sangrentas ofensivas militares em Gaza, mas talvez tenha maior empatia pelo sofrimento da guerra de Gaza entre os palestinianos. Nas palavras do especialista do Carnegie Center, David Miller, uma mudança de tom sem significar uma mudança de política.

Harris é casada com um judeu, Doug Emhoff, muito ativo na luta contra o antissemitismo e que aproximou a sua mulher dos valores judaicos, o que pode facilitar a sua ligação a Israel.

Sobre a outra guerra, na Ucrânia, na última cimeira em Obbürgen (Suíça) Harris reiterou que o seu país apoiava “uma paz justa e duradoura” face à invasão russa, que disse “não ser apenas um ataque à segurança alimentar global e ao fornecimento de energia, mas também um ataque às regras e normas internacionais”.

E embora nessa mesma cimeira tenha anunciado uma ajuda de 1,5 mil milhões de dólares à Ucrânia, é difícil saber se continuará com a mesma linha de defesa férrea do governo Zelensky contra um Trump que não escondeu que quer forçar um acordo de paz e acabar com o dispendioso apoio aos ucranianos.

Dada a crescente proeminência da China no mundo, tanto em termos económicos como geoestratégicos, Harris não se desviou da linha do seu governo.

com Lusa