
Correr o país, divertir o público, ajudar as pessoas e empoderar mulheres. Estes são quatro objetivos de Melânia Gomes, 40 anos, que se prepara para estrear a comédia Solteira Casada Viúva Divorciada, assinalando, ao mesmo tempo, duas décadas de percurso como atriz.
Com estreia a 17 de outubro, no Teatro Armando Cortez, em Lisboa – seguindo em novembro para Albergaria-a-Velha e Felgueiras –, a trama tem por base a vida de quatro mulheres distintas interpretadas por Melânia, personagens que partem de ideias feitas que existem sobre as mulheres na sociedade, mas pretende ir além da imagem “simples e redutora”. “Quem não tiver capacidade de perceber esse tipo de humor, elegante e humano, é infelizmente muito limitado e não vai evoluir muito nesta vida”, considera a atriz, que, apesar da luta contra pré-conceções, crê “não ser possível viver no mundo sem preconceitos”. “Acho utópico de mais”, acrescenta.
Em conversa por escrito com a Delas.pt, Melânia Gomes revela detalhes do próximo projeto, dos 20 anos de carreira, grande parte deles no pequeno ecrã, e das mulheres a que ainda lhe falta dar corpo.
O que mais a fez a pensar em cada uma das personagens? Porquê?
Penso sempre na história que o texto não conta, o que está por trás, que o texto indica, e ajuda a perceber, mas se não faz esse trabalho nem esse caminho sozinho. Gosto desse tipo de trabalho, de encontrar essa verdade.
“Psicologicamente, a viúva é a personagem mais desequilibrada, mais instável de todas. Fisicamente também é mais desafiante”
A divorciada que não acerta nos homens, a solteira que sonha com alguém porque sozinha não dá, a Carmo traída e que sonha vingança e a viúva que se liberta das amarras e diz um palavrão. Como olha para estas sínteses simples sobre estas mulheres? Não há aqui uma visão redutora? Como é que a comédia pode combater preconceitos? Viver sem eles?
Claro que é uma visão redutora sim, mas também são esses ganchos que levam as pessoas a quererem saber algo mais, pelo menos eu não me satisfaço com uma imagem simples e redutora, gosto de saber mais, de me aprofundar, quer como atriz, quer como espectadora também. Claro que os “bordões”, essa “síntese”, digamos essa “manchete”, é um chamariz, cria a curiosidade, o que depois leva as pessoas a quererem saber mais. A comédia sempre combateu os preconceitos de uma forma muito simples: com a gargalhada, que é a base do teatro de Gil Vicente, “rindo corrigimos os nossos costumes”. Com inteligência, educação e elegância, sem magoar nem ofender ninguém, mas com espírito crítico. Quem não tiver capacidade de perceber esse tipo de humor, elegante e humano, é infelizmente muito limitado e não vai evoluir muito nesta vida.
No plano real, não acredito que seja possível viver no mundo sem preconceitos, acho utópico de mais. Mas devemos lutar para isso, com informação, com educação, com inteligência emocional, com empatia, tentando sempre pormo-nos no lugar do outro, mas é todo um processo. Não sei se a raça humana alguma vez vai conseguir alcançar esse estado de perfeição. Acredito que vamos sempre viver com preconceito, vamos sempre lutar contra ele e tentar libertar-nos disso, é essa a nossa função enquanto raça que deve querer evoluir.
“Quero estar junto do público, alegrá-lo, diverti-lo, ajudá-lo, sempre com um sorriso no rosto, mostrando o lado positivo das coisas, encorajando e dando força às pessoas para continuarem o seu caminho, para lutarem pelos seus sonhos, para tratarem delas, se reerguerem, lutarem, curarem-se e serem felizes”
Que características foram mais fáceis e difíceis de “incarnar” em cada uma destas ‘quatro’ mulheres da peça? Porquê?
O que é sempre mais desafiante é passar emoções e sensações que não nos são tão familiares, ou que ainda não vivemos. Por outro lado o que se torna mais fácil é passar emoções pelas quais nós também já passamos, em que há essa identificação, conhecimento. Portanto todo o trabalho é assemelhar, procurar pontos de conexão de identificação, mesmo com situações que nós não tenhamos passado.
Qual a personagem que lhe deu mais trabalho? Porquê?
Creio que a personagem mais desafiante para mim foi a Viúva, porque pertence a um estrato social que ainda não tinha feito enquanto atriz, e por isso não tinha ainda um conhecimento profundo já adquirido de outros trabalhos. E, psicologicamente, é também a personagem mais desequilibrada, mais instável de todas. Fisicamente também é mais desafiante.

Em 20 anos de carreira, quais as mulheres que mais gostou de dar vida? Quais as mais difíceis e porquê? E quais as que ainda quer muito fazer e porquê?
Gostei muito de criar a minha personagem alter-ego Silvina Godinho, o desafio de interpretar uma personagem muito mais velha, com esquizofrenia, com vários problemas mentais, mas ao mesmo tempo aparentemente muito divertida e bem disposta. Também gostei muito de interpretar a minha Daniela [Papel Principal, novela da SIC], último projeto que fiz em televisão, uma atriz alcoólica funcional, permitiu-me mergulhar num universo que não é tão comum ser explorado em ficção na televisão, e guardo com carinho várias personagens que fiz… Nunca me esqueço da minha primeira personagem, uma galega apaixonada por um lobisomem, que me apresentou ao grande público de uma forma tão estonteante e maravilhosa. Tanto assim, que durante muitos anos muitas pessoas acharam que eu era, de facto, galega. O que quero fazer agora é esta Solteira Casada Viúva Divorciada, quero que este espectáculo corra o país, que divirta muitas pessoas, que ajude muitas pessoas e que ponha Portugal a rir, empoderando muitas mulheres.
Vinte anos de carreira depois, que Melânia é esta? O que mudou? O que a desiludiu? O que a surpreendeu? E o que ainda quer mudar?
O tempo ensina-nos muita coisa, prepara-nos, acalma e amadurece, mas a minha essência permanece igual. Sou uma pessoa apaixonada pela vida, pelo meu trabalho, que se entrega de alma e coração aos projetos, que quer dar a sua contribuição de forma franca e honesta… Apaixonada, vibrante e divertida, que quer estar junto do público, alegrá-lo, diverti-lo, ajudá-lo, sempre com um sorriso no rosto, mostrando o lado positivo das coisas, encorajando e dando força às pessoas para continuarem o seu caminho, para lutarem pelos seus sonhos, para tratarem delas, se reerguerem, lutarem, curarem-se e serem felizes. Seja com o meu trabalho, seja na minha vida.