Morreu a grande educadora do sexo. ‘Doctor Ruth’ tinha 96 anos

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[Fotografia: Chris Delmas / AFP]

Pouco mais de um mês de completar 96 anos, Ruth Westheimer morreu em casa, em Manhattan, nos Estados Unidos da América. Dito desta forma, talvez seja estranho associar o nome, mas se falarmos em Doctor Ruth talvez o caso mude de figura.

A terapeuta sexual revelou-se pioneira e um ícone cultural ao trazer, de forma franca e descomplexada, o tema do sexo sem tabus para os grandes meios de comunicação social, a rádio e a televisão, aulas e livros. “Tenham bom sexo”, afirmava sempre a especialista no fim de cada preleção ou sessão de esclarecimento.

A informação do desaparecimento da Doctor Ruth foi avançada pelo coautor de vários livros Pierre Lahu ao jornal Washington Post, na sexta-feira, 12 de julho.

Há seis anos e a propósito da data redonda que assinalava a 4 de junho, Ruth Westheimer afirmava com humor, em entrevista ao jornal New York Times: “Aos 90 anos, falo de sexo todos os dias, de manhã à noite.”

E relatou ainda: “Não fui apenas uma das primeiras mulheres a falar de sexo.” Estávamos então nos anos 80 e ela fazia a sua primeira rubrica de 15 minutos – e que passou depois a formato televisivo de duas horas – a falar dos assuntos tabu num magazine radiofónico da estação WYNY-FM chamado Sexually Speaking (Sexualmente Falando, em tradução literal).

Por aquele espaço, lembrou Ruth na entrevista, passaram os mais duros temas da atualidade. “Poucos falavam de SIDA, eu dizia que era preciso usar preservativo e ter cuidado com quem as pessoas se deitavam”, recordou.

Um trabalho longo, de tomada de consciência, mas sem alienar o prazer da vida dos espectadores, valendo a Ruth o título de uma das 12 mulheres que mudaram a maneira de ver o sexo, uma lista concebida pela revista Vanity Fair, em 2009.

Pelo meio, a terapeuta escreveu livros, e a sua vida e o seu trabalho inspiraram um musical de comédia na Broadway, estreado em outubro de 2013 e intitulado Becoming Doctor Ruth (Tornar-se a Drª Ruth, em tradução literal).

De refugiada a ‘sniper’ e a terapeuta sexual

Filha de uma família judia, a mãe, Irma, era uma emprega de limpeza, e o pai, Julius Siegel, um comerciante. Aos 11 anos, Karola Ruth Siegel (nome de nascença) é obrigada a fugir para a Suíça ao abrigo de programa de transporte de crianças. Uma fuga que tem lugar ao mesmo tempo em que o seu pai era feito prisioneiro pelos nazis.

Dois anos mais tarde, em 1941, Ruth sabia, através de quem a protegeu, que os seus pais não tinham sobrevivido aos campos de concentração.

Quando a guerra termina e já aos 17 anos, Ruth integra uma das primeiras missões de mudança de judeus para a Palestina, como tantos sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, mudar-se-ia para o Kibutz Nahalal, no norte do país, onde trabalhou na colheita de tomates e azeitonas. Depois, seguiu para Kibutz Yagur, também a norte da Cisjordânia. A sua personalidade, a história de vida e o talento militar levam-na, conta o site História da Guerra, a ser atiradora (sniper) de disparo certeiro. É nesse cenário que conhece o primeiro marido, e juntos, mais tarde, mudam-se para Paris onde Ruth se torna professora, preparando-se para ingressar num curso de psicologia na Sorbonne.

Em 1956, já num segundo casamento, muda-se para Manhattan, nos Estados Unidos da América e obtém, em 1959, o mestrado em Sociologia. No virar da nova década, os anos 60, a especialista passa a integrar os estudos interdisciplinares e da Universidade de Columbia e conclui o doutoramento em Educação. É nesta ocasião que encontra o amor ao lado de Manfred Westheimer e Ruth, que já era mãe de uma menina (Miriam), dá a luz um rapaz, Joel.

É entre esta época e os anos 80, quando se torna uma celebridade nos EUA, que a especialista aprofunda o seu conhecimento em matéria de sexualidade, transformando-se depois no ícone que hoje é reconhecida.

Por cá, foi várias vezes inspiração: fosse pelo humor de Herman José, em Dra Rute Remémdios, na série Herman Enciclopédia, fosse pela forma despudorada com que sempre abordou a sexualidade, o que influenciou sexólogas a trilharem o mesmo caminho.