“Pela primeira vez, num ciclo de nove anos, nós vimos aumentar o ‘gap’ [fosso] salarial de 13,1% para 13,2% se considerarmos o salário base, e de 15,9% para 16% se considerarmos o ganho [salário liquido] e isto deve preocupar-nos“, denunciou a presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), Carla Tavares.
Em audição na subcomissão parlamentar para a Igualdade e Não Discriminação alertou, esta quinta-feira, 3 de outubro, para o aumento do fosso salarial entre homens e mulheres pela primeira vez em nove anos, sobretudo nos quadros superiores.
Nesta matéria, a responsável detalha à Delas.pt que, nas profissões e nas funções mais qualificadas elas “chegam a ganhar menos 25% do que os homens, ou seja menos 1/4 dos ganhos”. Uma discrepância que emerge não do salário base, mas dos ganhos totais, ou seja, o que inclui “ajudas de custo, horas extra, subsídios e todo o tempo que está disponível para auferir mais”, e que as mulheres não dispõem, clarifica Carla Tavares.
“Nos quadros superiores e nas profissões mais qualificadas há um aumento bastante significativo do ‘gap’ salarial entre mulheres e homens e isto é algo que deve merecer a nossa reflexão e percebermos o que pode ser feito para melhorarmos esta realidade”, defendeu Carla Tavares.
Mas, afinal, como resolver? Para a responsável a resposta está no tempo… em casa. “A desigualdade vai perdurar enquanto não houver uma efetiva partilha das tarefas em casa“. “E não é ajudar, é partilhar, é dividir as tarefas”, acrescenta a presidente da CITE, que fala na urgência em “sensibilizar homens e mulheres para esta realidade”. Assim sendo, prossegue Carla Tavares, “é preciso que os homens comecem a fazer mais, mas também é urgente que as mulheres saibam abdicar, pondo fim a frases como ‘eu é que sei fazer’“, recomenda em conversa com a Delas.pt.
A responsável referiu na Subcomissão para a Igualdade, a propósito, que a CITE tem prevista uma campanha para 2025 sobre partilha de tarefas domésticas e trabalho familiar, sublinhando que “é aí que está a base de todas as desigualdades”. “Enquanto nós não conseguirmos quebrar esta barreira, não conseguimos alcançar a efetiva igualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho”, defendeu na audição com os deputados.
Segundo Carla Tavares, o diferencial no tempo que homens e mulheres gastam com trabalho doméstico “ainda é tão persistente” e lembrou que o último estudo da CITE revelou que as mulheres despendiam mais uma hora e 45 minutos do que os homens na realização dessas tarefas
“Enquanto nós não diminuirmos este ‘gap’ [no trabalho não remunerado], nós não vamos, de facto, conseguir resolver todos os outros problemas que afetam as mulheres nas mais diversas vertentes, mesmo ao nível da progressão da carreira”, defendeu.
Questionou por que razão “as mulheres muitas vezes não acedem a lugares de maior responsabilidade”, respondendo imediatamente que é “porque recai sobre elas outras responsabilidades”, como o “tratamento da casa, da família, de cuidar dos filhos”. ” [Isso] não lhes permite muitas vezes assumir funções de maior responsabilidade”, sublinhou.
Além da campanha pela partilha de tarefas domésticas, a presidente da CITE disse que está também prevista outra campanha pela prevenção e combate ao assédio no trabalho.
Carla Tavares adiantou que em 2023 foram reportadas à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) 426 “situações de irregularidades” detetadas pela CITE e adiantou que está a ser ultimada uma ferramenta que irá permitir uma ligação mais direta entre as duas entidades para a monitorização dos processos.
com Lusa